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Design e Moda: como agregar valor e diferenciar sua confecção

Carlota Rigueral, IPT, 2002.

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Estruturação da coleção

Cores

 

“A cor é a música dos olhos.” (Goethe)

As cores são nosso primeiro recurso disponível para atingirmos o impacto visual, algo que desperta o olhar, a atenção. Através das cores podemos identificar vários aspectos em uma pessoa, desde o seu estado de espírito (alegre, triste, apaixonado, em paz, etc.) até mesmo algumas características ou simbolismos como arrojamento, conservadorismo, ingenuidade, etc. Logicamente que a forma ou modelagem, completam e definem esta primeira impressão.

 

_Partindo do pressuposto de que não existem cores feias, o que temos que procurar são combinações harmoniosas. Podemos classificar as cores segundo a (s) matiz (es), que é a cor (primárias: azul, amarelo e vermelho) ou a mistura de cores propriamente ditas (secundárias e terciárias), a saturação que é o grau de pureza da matiz (quanto mais pura, mais saturada ou viva é uma cor) e a luminosidade que indica quanto de branco há em uma cor (quanto mais branco, mais luminosa) .

 

_As cores têm seu histórico e cada uma teve e tem representatividade diferente no passar dos anos, geralmente ligada à maior ou menor dificuldade em obtê-las. Já o significado das cores, ligado à sensação que causam quando são observadas, está menos sujeito a mudanças e é objeto de numerosos estudos por parte de psicólogos, psiquiatras, sociólogos, etc..

 

_Fazendo uma panorâmica bem rápida, podemos recordar os principais aspectos relacionados ao histórico e significado de algumas cores:

 

_Inicialmente, vamos nos recordar que as cores nada mais são que a decomposição da luz branca em diversas frequências (lembre-se do prisma ou do arco-íris) indo do vermelho até o violeta.

 

_Curiosamente os matizes mais comuns no guarda-roupa: o branco, o preto e o cinza representam a presença e a ausência de luz respectivamente.

 

Branco (somatória de todas as cores, luz)

- No período clássico representava as nuvens e a morada dos Deuses e até hoje simboliza paz, pureza e inocência (no vestido de noiva a partir de 1920 e no batizado).

- Por se sujar com facilidade, esteve historicamente relacionado à riqueza, sugerindo que aquele que o indossa tem disponibilidade de sabão e mão-de-obra para lavar as peças brancas.

- A partir do século XX, com a descoberta dos germes e da relação entre higiene e saúde, passou a ser adotado em ambientes hospitalares.

 

Preto (ausência de luz)

- Por ser a ausência de luz, a cor preta naturalmente simboliza tudo aquilo que está ligado às trevas, às coisas obscuras e misteriosas, ao perigo, à morte, à tristeza, etc..

- Foi muito usado pela corte espanhola no final do séc. XVI (acompanhado de uma gola branca significando a pureza interior) e no período vitoriano, inicialmente em sinal de luto e depois estendido às mulheres passada a meia-idade.

- Pode também sugerir elegância e sofisticação (associado a um conhecimento restrito) como no vestido pretinho Chanel dos anos 20 e reproposto nos anos 50.

- Associado também à boemia e consciência perante a vida, o que explica sua aceitação entre bailarinos, atrizes de teatro, músicos, poetas, pintores e intelectuais em geral.

- Nos negócios sugere seriedade, estabilidade, formalidade e autocontrole.

- É relacionado ainda ao arrojo e agressividade como pode-se notar sua preferência entre os motoqueiros dos anos 40 (filme: "O Selvagem" com Marlon Brando) e os punks de agora.

 

Cinza (sombra, combinação de branco e preto)

- É a combinação das duas cores anteriores e portanto de dois opostos, sugerindo tudo aquilo que é indefinido, ambíguo, nebuloso e dúbio.

- Ideal para as pessoas que não querem ser notadas.

- Os tons mais escuros denotam conservadorismo, conformismo ou convencionalidade (como os ternos e batinas do clero) e, à medida que clareia, pode representar refinamento, sensibilidade e inocência com um toque de conhecimento.

 

Cores Primárias:

Vermelho

- Representa a força vital do ser humano (a cor do sangue), provoca altereções no ritmo cardíaco e respiratório e está ligado às emoções fortes como paixão, ódio, perigo, etc...

- Os tons mais fortes, tendendo ao púrpura estão relacionados à sensualidade e desejo sexual, o tom mais puro ao calor e perigo repentino (semáforo, bandeira do toureiro), já os tons alaranjados realcionam-se à agressão enquanto os tons mais suaves como carmim, damasco e rosa sugerem paixão e afeto.

 

Amarelo

- É a cor que representa a luz do sol e portanto está ligada à energia, juventude, otimismo, extroversão, bom humor, etc... O logo “ smile” (traços pretos da carinha sorrindo sobre o fundo amarelo) é uma síntese das emoções associadas à essa cor.

- Sua fácil visibilidade explica seu emprego em sinalizações onde requer-se um estado de alerta, como nos sinais de trânsito, e capas de chuvas de bombeiros

- Muito comum em roupas de crianças simbolizando ingenuidade, efeito esse amenizado nos tons mais amarronzados (açafrão e curry) e muito usado por adultos. O mesmo ocorre com os tons dourados mas, neste caso, para demonstrar riqueza e prosperidade.

 

Azul

- É praticamente o oposto do vermelho à medida que representa tudo aquilo que está fora (o céu, as montanhas distantes), produzindo um efeito calmante e harmonioso propício `a meditação e ao lazer. De fato é muito encontrado em ambientes e imagens religiosas (Virgem Maria), significando humildade e devoção assim como é a cor preferida de pessoas gozando férias.

- Sugere ainda franqueza o que torna seu uso recomendável no trabalho. Politicamente, exprime opiniões conservadoras.

- Nos tons mais escuros transmite seriedade e sofisticação e mesclado com cinza representa melancolia e depressão como na expressão em inglês “blue” ou “have the blues” significando estar deprimido.

 

Cores Secundárias:

_O emprego de cores secundárias como o laranja, o verde e o púrpura são mais incomuns nas roupas que as primárias e por isso denotam originalidade e jovialidade, sobretudo quando combinadas entre si. (Lembre-se que eram cores muito usadas na década de 60 – vide o item 2A. História da Moda)

 

Laranja (amarelo + vermelho)

- Sendo o laranja a mescla do vermelho e do amarelo, a mensagem que essa cor transmite situa-se exatamente a meio caminho entre uma e outra, ou seja, é mais chamativo que o amarelo e por isso também bastante empregado para sinalização.

- No campo das emoções denota euforia, que não deixa de ser uma mistura de paixão e entusiasmo. Usado em acessórios, pode alegrar um visual ao passo que acrescido de rosa ou branco, tem seu efeito suavizado.

 

Verde (azul + amarelo)

- Intimamente ligado à natureza e à mata, transmite uma sensação de liberdade (semáforos), fertilidade e crescimento e por isso é associado à magia e ao sobrenatural. Segundo estudos realizados até agora pelo método das pirâmides de Pfister, é a cor preferida pelos brasileiros.

- Favorece a concentração e por isso é utilizado em lousas escolares, toalhas de jogos de cartas e mesas de bilhares.

- Na Europa, é a cor da Irlanda do Norte reafirmando ainda mais a idéia de libertação.

 

Púrpura (vermelho + azul)

- Matiz muito prestigiado na Antiguidade devido à dificuldade de obenção que se dava exclusivamente pelo uso de um raro (e caro) molusco. Por esse motivo era reservado à realeza, que, associando-o ao branco (corte inglesa até hoje), confere-lhe refinamento.Com a invenção da anilina no século XIX, tornou-se cada vez mais acessível e, por isso, vulgarizou-se e desvalorizou-se rapidamente.

- Os tons mais suaves como ameixa, beringela e avermelhados sugerem riqueza e elegância e até hoje são bastante empregados para trajes de festas.


Cores terciárias:

Marrom (laranja + azul)

- Assim como o verde, está associado à natureza, porém em seu estado mais bruto, como a terra arada, e os campos outonais e invernais. Por isso, sugere segurança, estabilidade e força.

- A obtenção fácil e barata (o tingimento pode ser feito até mesmo com a própria terra), aliada à capacidade de ocultar a sujeira (em épocas onde o sabão podia ser considerado um luxo) sempre foi e até hoje é a cor mais popular para as atividades do campo e junto aos religiosos que condenam a luxúria e pregam pobreza (como os fransciscanos) e para as camuflagens dos exércitos.

- Seus tons mais claros denotam status e são usados pelos profissionais para esconder emoções e os mais escuros para transmitir tranquilidade e solidez no trabalho.

 

ONDE PESQUISAR CORES ?

 

_As opções são infinitas e mais adiante daremos algumas sugestões. O importante é que acionando as ferramentas ATENÇÃO e SENSIBILIDADE , poderemos descobrir muito mais fontes de inspiração.

 

Um exemplo:
_Recebemos sempre uma enxurrada de malas diretas (qualquer tipo) – fique de olho, pois alguém já quebrou a cabeça procurando uma HARMONIA de cores para nos atingir – pois neste caso, somos o consumidor. Se sofrermos algum tipo de impacto quando recebermos uma determinada correspondência, devemos acionar a SENSIBILIDADE , para avaliar o que foi que nos seduziu e arquivar esta informação para utilizá-la quando chegar a hora. Este impacto pode ter sido causado, pelas cores, pela diagramação ou fonte (letras ou traço), pela mensagem (que pode tornar-se uma estampa no futuro), ou ainda pelo formato (faca) que pode se transformar num adereço ou aviamento: bolso, bolsa, botão ou embalagem... Nesse ponto é que temos que usar a ferramenta CRIATIVIDADE para descobrir como utilizar essa sensação.

 

Voltando às sugestões de onde pesquisar as cores, aqui vão algumas:

 

1º) Meias , Lenços , Toalhas , Guardanapos, Linhas, Fitas, Jogos Americanos, etc. (principalmente em lojas especializadas: armarinhos, festas, cama, mesa e banho, ou setores específicos de lojas de departamento, onde há uma cartela de cores prontinha e normalmente harmoniosa). Logicamente, escolhendo o mesmo produto e a mesma matéria-prima, nas opções de cores disponíveis.

 

2º) Cartões , Papéis de embrulho ou de carta , Materiais de desenho, etc.. (pastel, cera, tintas, lápis, etc.) Embalagens , Sacolas (às vezes a da própria loja) – procurar em lojas de desenho ou nos setores de papelaria de lojas de departamento.

 

3º) Gravuras , Calendários , Pinturas (livros de pintores), Posters (de exposições, concertos, etc.), Livros de crianças (ilustrações), etc..

 

4º) Revistas (fique atento em todas as fotos – alguém pode estar vestindo a cartela de cores que precisamos), ou mesmo em anúncios ou na própria diagramação da revista, às vezes os próprios tópicos possuem cores maravilhosas e já combinadas entre si. Qualquer revista pode possuir algo interessante - turismo, decoração, propaganda, design , música, etc.; tudo o que tiver imagem pode ser válido.

 

5º) Em objetos ou peças prontas, como: cerâmicas , tapetes , jacquards , tecidos lisos , azulejos , retilíneas , etc. Produtos que já possuam cor e intensidade de luz e que sejam harmoniosas.

 

6º) Pantone - cartela de cores impressa em papel ou tingida em tecido, com a melhor precisão do mercado. Seus códigos são utilizados em qualquer parte do mundo indicando a cor exata em questão. Há cartelas por segmento (gráfica, decoração, têxtil, etc.) e podem ser apresentadas em bloquinho ou em fichários com cores destacáveis. Possuem prazo de validade, pois sua exposição ao sol altera as tonalidades por isso, o ideal é guardá-los em local escuro. As cores em tecido possuem receitas e as em papel para gráfica também (cores puras e quadricromia).

 

7º) Cartelas de cores em geral - adquiridas em feiras ( Premier Vision , Pitti Fillati , etc.) ou as de fornecedores em geral (fios, malhas, tecidos planos, tintas, etc.).

 

_Guardar cartelas de cores é sempre útil, pois podemos sempre recorrer a elas propondo algo diferente ou com uma nova visão, ou misturando tons de diferentes cartelas.

 

_A intensidade de luz é muito importante para promover este equilíbrio, isto é, se optamos por tons amanteigados ou por tons acinzentados, todas as cores devem ter a mesma linguagem. Podemos misturar intensidades diferentes, mas para valorizar esta escolha, devemos propor várias peças ou estampas que assumam esta escolha. Um exemplo é a proposta deste próximo verão (2002/03): alguns estilistas entraram com o marrom e estão combinando com o azul claro ou com o rosa (uma cor escura combinada com cores de luz). Outra combinação do verão é o roxo com caramelo e branco. Na verdade, são cores que estão sendo trabalhadas sozinhas e que depois entram coordenadas entre si, ou num conjunto ou em uma aplicação, e acabam assumindo de forma marcante a escolha das cores. Esse trabalho é o que chamamos de valorização da escolha.

 

A partir do momento que assumimos uma cartela, ou acreditamos nela ou é melhor não incluir a cor. Quando colocamos uma cor para dizer que há opções e são as da tendência, mas não fazemos um trabalho maciço, é melhor ficar nos básicos, pois será apenas para cumprir tabela e a mensagem da coordenação com equilíbrio não será transmitida (onde todas as cores tem o mesmo valor). Logicamente, há cores que podem entrar como detalhe, mas estes detalhes serão usados em várias peças, demonstrando claramente que foram assumidos e que estão preservando seu peso dentro da coleção.

 

_Dentro deste conceito, podemos sugerir combinações inusitadas como os mais arrojados já propuseram - vermelho com turquesa, ou pink com vermelho. Esta combinação inusitada proposta, assume dentro da coleção uma coordenação que chama a ATENÇÃO ora para um detalhe ou uma estampa, ora um top (parte de cima) ou um bottom (parte de baixo).

 

Por isso, a postura correta é:


ASSUMIR
para transferir com credibilidade


ESTA PROPOSTA
que passa a ser


VERDADE
para o consumidor final.

 

Ferramentas para Visualização

 

_Para desenvolvermos as estampas ou mesmo criarmos os croquis, podemos utilizar vários programas de tratamento de imagem. Há programas específicos para estamparia possibilitando estudo de cores (visualização rápida) e raportagem (encaixe do desenho à medida que se repete).

 

Há programas também onde se pode visualizar a estampa na própria roupa fotografada, preservando as ondulações do caimento. Este programa seria mais usado para formatar um catálogo, já aqueles de layout seriam apenas uma prévia para facilitar a visualização. Os produtores mais conhecidos no Brasil que desenvolvem este tipo de programa são a Investronica, Lectra e Gerber.

 

_Podemos desenvolver croquis e mesmo estampas em programas não tão específicos, como Photoshop e Corel. O Photoshop é usado para tratamento de imagem, com várias opções de filtros e que possibilita a saída para fotolito, possibilitando desenvolver até a arte final. Já o Corel Draw é mais utilizado para montagem de fichas técnicas ou mesmo croquis onde podem ser inseridas as estampas feitas no Photoshop.

 

_Na verdade estes programas mais acessíveis possuem várias ferramentas, e por este motivo, dependem muito da CRIATIVIDADE e da forma de utilização das mesmas. Você tem vários caminhos para fazer a mesma coisa e com a prática e o acúmulo de arquivos que podem ser reaproveitados, o processo se torna cada vez mais ágil. No caso de croquis , podemos ir arquivando por tipo de produto (abrindo pastas de camisetas, calças, shorts , etc.) e ir reaproveitando o que já foi feito, utilizando em várias coleções. A ficha técnica por sua vez, pode ser feita no Excel e ter o croquis do Corel inserido como figura. A vantagem do Excel, é que podemos inserir cálculos (de consumo e custo) e reaproveitar as fórmulas para novas fichas que podem ser arquivadas no próprio HD.

 

_O desenvolvimento de estampas, etiquetas ou material gráfico pode ser também trabalhado nesses programas. Uma dica é a partir da definição da cartela de cor, desenvolver as cores no computador. Isto requer testes pois muitas vezes há discrepância entre o que vemos na tela e o material impresso. Esses acertos levam tempo e devemos sempre nos basear no resultado da impressão.

 

_Estes programas também permitem formatar um catálogo, folder , ou até mesmo banners . Todo o desenvolvimento de apoio para vendas e pós- vendas, pode ser concebido nestes programas com ótima qualidade, dependendo sempre da CRIATIVIDADE do operador.

 

_Podem ser utilizadas fotos para o catálogo sendo digitalizadas e inseridas no Corel para apresentação do layout . Enfim todo o material visual pode ser desenvolvido com a mesma linguagem e pode ser feito internamente, desde que hajam pessoas habilitadas.

 

_A configuração ideal para o computador depende do trabalho, mas o principal é que tenha muita memória e rapidez. Esses aparelhos tornam-se obsoletos muito rápido, por este motivo aconselho que seja feito upgrade se possível todos os anos. Não digo que deva-se usar o que há de ponta (pois o custo é excessivo e depois de poucos meses desvaloriza muito rápido) mas algo intermediário, que alterará o resultado proporcionando um custo/benefício, compensador.

 

_Um bom scanner e uma boa impressora também são considerados investimentos e não despesas, que garantem qualidade e agilidade nos trabalhos.

 

_O Gravador de CD, hoje em dia, também é considerado um instrumento que possibilita armazenar arquivos (economizando espaço no disco rígido) gerando facilidade e qualidade no envio de informações.

 

_Outro acessório atualmente INDISPENSÁVEL para manter-se atualizado e com agilidade para transmitir e adquirir informações, é a INTERNET. O ideal é ter acesso via banda larga, outro investimento que vale pela rapidez e diferença incomparável com o acesso normal. A possibilidade de acesso e a facilidade em consultar sites de concorrentes, fornecedores e outros, é o que há de mais fantástico neste nosso século.

 

Temos que aproveitar e usufruir ao máximo!

 

Formas e Modelagens

_Como já dissemos anteriormente, não há uma sequência padrão a ser seguida quando iniciamos uma coleção e muitas vezes podemos ter um insight (uma idéia), um caminho que surge através de uma modelagem já existente, até mesmo antiga.

 

_Vemos isso o tempo todo, nas coleções atuais inspiradas em modelagens antigas. Reinaldo Lourenço, utilizou um modelo de manga que foi criado no Renascimento e a partir desta idéia, criou outras peças.

 

_Por este motivo é interessante visitar brechós, museus, assistir a filmes de época e estudar a História com a ATENÇÃO , para podermos com a SENSIBILIDADE descobrir detalhes escondidos e com a CRIATIVIDADE , transformá-los.

 

_A modelagem tem o dom de modernizar, de dar leveza e embelezar a criação. Sair do papel e tornar-se tridimensional é o passo para a concretização do sonho. As proporções devem ser estudadas com muito carinho, para que o detalhe escolhido seja realmente valorizado e todo o restante da obra sirva de suporte para este detalhe. Mesmo que façamos uma camiseta, ela deve ter todos os seus pontos estudados (decote, cava, comprimento, caimento, etc.).

 

_Para facilitar o percurso, temos que definir padrões e a partir dessas definições, iniciar o processo de modelagem. As famosas bases , são fundamentais para agilizar e encurtar o caminho. Ter uma tabela de medidas é imprescindível, (por mais que o modelo seja diferente), pois todas as alterações serão feitas sobre aquela base, mesmo que o caimento ou o encolhimento seja diferente. Se já padronizamos o comprimento da modelagem, ex.: baby look , confortável, básico, etc., podemos nos referir à base e descrever as diferenças. Quanto mais bases aprovadas tivermos, mais ágil fica o processo. Lógico que podemos alterar, porque a moda muda e novas modelagens se tornarão referência, mas tendo a tabela de medidas aprovada, evitaremos uma série de provas desnecessárias.

 

_Outro fator importante é a confiabilidade do consumidor , que, com a padronização dos tamanhos garante que a base “x” (não importando qual o modelo) lhe cairá sempre bem.

 

_O tempo dispensado no início de uma coleção para estabelecer padrões, será o tempo melhor empregado, pois pode ser considerado um investimento para poupar custos e prejuízos futuros. Organização é a verdadeira base do processo criativo. Quando o desenvolvimento é idealizado como um todo (para não perdermos o foco), devemos ir subdividindo o conceito. A partir do momento que definimos quais as bases se encaixam melhor com o visual da inspiração (ou tema), o passo seguinte é definir quais as matérias-primas (tecidos, malhas) e acabamentos que irão coordenar melhor com as nossas bases escolhidas.

 

_Como já dissemos, o caminho pode se dar de forma inversa, ou seja, escolhermos primeiro a matéria-prima para depois definir a modelagem. O importante é seguir uma escala de valorização do foco.

 

_São metodologias, que até fazerem parte da nossa rotina, são sempre taxadas de “perda de tempo”, mas na verdade quando absorvidas, tornam-se a alavanca do processo e a chave para a agilidade do percurso.

 

_As tendências vão surgindo e o bom senso (também extremamente subjetivo), deve estar sempre presente, para peneirar e adaptar o que está sendo proposto para o nosso público alvo. A modelagem é a ferramenta que vai viabilizar esta proposta.

 

_Supondo que a tendência fosse balonê e meu público mulheres com quadril largo, eu até posso desenvolver um balonê, mas opto por coordenar com um top com detalhe nos ombros (um belo decote canoa que alargue o visual na parte superior), para equilibrar o efeito do balonê. Posso também usar um listrado vertical, que irá alongar a silhueta. Estes são os recursos que a modelagem nos oferece, mas serão a SENSIBILIDADE e a HARMONIA que direcionarão a CRIATIVIDADE para forjarem o modelo ideal para o meu público, que quer usar as tendências, mas não tem corpo escultural. O ideal é evitar modelagens que não agreguem valor ao visual do consumidor . Por este motivo, o bom senso deve ser o guia na seleção dos modelos que constituirão uma coleção. A outra possibilidade é desenvolver certos modelos em apenas alguns tamanhos , para que a imagem da sua grife seja preservada, não correndo o risco de destoar no mercado.

 

_O conhecimento das proporções é fundamental, por isso uma dica é olhar de longe , para conseguir visualizar o corpo dentro da modelagem. Às vezes 1 cm à menos faz alongar visualmente muito mais do que a medida em si. Recortes podem acentuar ou disfarçar quadris, busto ou podem alongar ou encurtar a silhueta. Por este motivo, é importante conhecer muito bem o seu público alvo, para direcionar os modelos que farão parte da coleção e acrescentar detalhes ou formas que valorizem o consumidor.

 

_A seguir vamos descrever alguns perfis (um tópico resumido do livro “Chic” de Glória Kalil) para nos conscientizarmos dos recursos que temos para destacar qualidades ou amenizar imperfeições da silhueta.

 

 

Matéria-prima

_Escolhido o caminho a ser seguido, e aqui vamos supor que tenha começado pela matéria-prima, vamos agora acoplar-lhe design.

 

_Qualquer etapa do desenvolvimento de uma coleção é importante, mas esta pode levar tudo por água abaixo.

 

_A possibilidade que temos de valorizar uma modelagem básica ou simples na execução, é escolhendo a base correta. A matéria-prima é a alma da modelagem, na verdade, uma não vive sem a outra, mas podem se “matar”...

 

_Há uma corrente forte dentro das empresas que direciona o desenvolvimento para facilitar o processo da produção. Com toda a razão, isto deve ser levado em conta mas, logicamente, não pode ser o único norte da coleção. Neste ponto, a escolha da matéria-prima ideal pode ser a chave dessa facilitação. Se pudermos propor uma matéria-prima que valorize o modelo e que já tenha um impacto visual, não há necessidade de grandes detalhes ou muitas intervenções para a valorização da peça. Pelo contrário, quando mais simples o modelo, mais vamos estar chamando a ATENÇÃO para a matéria-prima escolhida.

 

_Para agilizar o processo, outra dica é sempre montar uma ou duas peças (até de coleções passadas), para testar caimento, encolhimento e “costurabilidade”, pois há exemplos de tecidos ou malhas que se tornam inviáveis na produção por esgarçamento, rigidez, enfim, comportamentos que prejudicam a execução no corte ou na costura.

 

_Outro item importante é o processo de lavagem (desbotamento, encolhimento, torção, pilling , etc.) e a mistura de materiais que podem ser incompatíveis. O ideal é testa-los com antecedência para evitar problemas posteriores. Este é um processo que enquanto não se torna de praxe, é um causador de distúrbios, mas a partir do momento que tudo o que entrar no processo for testado e fizer parte da rotina (havendo alguém ou um setor responsável), esta etapa deixará de ser um pesadelo e uma surpresa e passará a ser um agilizador no desenvolvimento. Logicamente, tudo tem que ser muito bem documentado para eventuais esclarecimentos. Hoje temos um suporte muito maior por parte dos fornecedores, que chegam a orientar desde o processo de lavagem, passadoria, agulha e até tração da máquina que melhor se adequa ao produto. Porém quando somos nós que estamos produzindo a matéria-prima (não querendo chover no molhado...mas garoando), temos que construir este processo de checagem.

 

_Outro grande problema que pode detonar o visual da coleção, são as diferenças de tonalidades, que por falta de um levantamento adequado de consumo (onde seria necessário o tingimento em barcas maiores) ou a estocagem sem critério (onde não há controle de barca ou mistura de lotes), são usados tons inaceitáveis , principalmente no caso de peças que formarão conjuntos mas que também serão vendidas avulsas.

 

_Tudo é uma questão de organização que, se implantada e executada desde o início do processo, tudo correrá sem surpresas e atropelos.

 

_Na parte de confecção, outro problema corriqueiro é o comportamento (no caso de matérias-primas sintéticas) quanto à passadoria. Explicando melhor, são aquelas famosas barras que não assentam e formam bicos. Este é um defeito que pode ser detectado fazendo-se uma barra de calça e verificando se a mesma fica parecendo um tubo, e não achata). Tanto em tecido plano como em malharia, este é um defeito de acabamento da matéria-prima, que compromete o visual da peça.

 

_Apesar de não pertencer exatamente à pauta do design , este ítem está totalmente ligado ao resultado e pode vir a prejudicar todo um trabalho de desenvolvimento, principalmente quando optamos por trabalhar com modelos mais básicos.

 

_Resumindo, o que temos que fazer para escolher a matéria-prima ideal, é fazer provas que “atestem” que o material escolhido irá se harmonizar com o modelo e realmente valorizar o conceito da coleção.

 

_Isto é válido principalmente hoje, quando a tendência é a mistura de materiais muitas vezes inusitados e de várias origens, texturas e pesos. Esta sobreposição é uma proposta que precisa de testes que confirmem sua viabilidade, pois são linguagens novas que muitas vezes não possuem histórico.

 

_Na verdade tudo pode ser proposto, mas precisamos é descobrir o que se casa melhor com cada escolha.

 

Tudo é possível, desde que testado.

 

Estampas, bordados, aviamentos e acabamentos.

 

Após escolhermos a cartela de cores a ser trabalhada, e admitindo que esta cartela já esteja harmônica, vamos desenvolver estampas exatamente com as mesmas tonalidades.

 

Dica fundamental:
preparar as tintas nos exatos tons da cartela (tanto para corridos como para localizados) para iniciarmos a coordenação.

 

- quadricromia: podemos trabalhar a imagem tentando acertar as cores para que se aproximem ao máximo das cores da cartela (em programas de imagem tipo Photoshop).

 

- traços chapados ou cromias: podemos trocar as cores pelas tonalidades que estamos utilizando (na própria estampa).

 

Estes são detalhes que no final vão criando um visual harmônico.

 

_Caso tenhamos partido de uma estampa ( transfer ou desenho pronto) comprada no mercado, faremos o inverso; puxaremos as cores da estampa escolhida, e assim procuraremos no mercado as tonalidades exatas que coordenem com a estampa, criando dessa forma a nossa cartela de cor.

 

_Caso haja a possibilidade de tingimento exclusivo, as outras matérias-primas que serão utilizadas na coleção, terão seu tingimento partindo das tonalidades da estampa adquirida.

_Outra forma de pesquisa para o desenvolvimento das estampas é a definição da “linguagem” a ser usada, isto é, o tipo de traço.

 

Exemplo:
podemos separar imagens impactantes tal como fotos reais, e transformá-las em um tipo de traço que escolhemos trabalhar na coleção. Pode ser uma linguagem de xerox com retícula “estourada”, ou um traço de rabiscos feitos com agulha sobre um fundo de giz de cera, ou um efeito de negativo ou de radiografia, enfim trabalhamos vários motivos com a linguagem escolhida. Esta é uma outra forma de ir “amarrando” a coleção, seguindo uma única linguagem.

 

_Os programas que trabalham imagem no computador podem oferecer vários recursos para agilizar este processo (Photoshop é um deles, mas o próprio Corel também oferece recursos).

 

_Por este motivo, o ideal é ir arquivando todas as imagens interessantes e depois ir transformando o seu visual nesta linguagem única.

 

_O mesmo posicionamento é o ideal quando se refere a aviamentos, bordados ou mesmo detalhes de acabamento. A mistura de muitas linguagens acaba criando um visual confuso que, por mais bonito que seja individualmente, acaba poluindo visualmente, chegando a provocar o impacto oposto (negativo).

 

_Por este motivo, depois de selecionar vários materiais ou acabamentos que nos agradaram, devemos acionar a SENSIBILIDADE , para peneirar o que realmente tem maior impacto e depois, com bom senso, utilizar a balança da HARMONIA para enxergar o conceito da coleção e alinhavar o que realmente agrega e valoriza ao eixo da coleção.

 

Temos que ir lapidando até que fique bem claro o enfoque do desenvolvimento.

 

Tudo deve ser coordenado com o intuito de:

1º) criar impacto pela HARMONIA (dando força nas cores escolhidas)

2º) estimular vendas pela possibilidade de inúmeras combinações entre si

3º) facilitar a produção (diluindo custos e lotes mínimos a serem desenvolvidos)

 

_A pesquisa de aviamentos, estampas (motivos) e acabamentos, como já vimos, não precisa e não deve ficar restrita ao campo da moda. Podemos nos informar nas feiras, mídia e fornecedores, mas se nos enfronharmos em outros setores teremos contato com novidades que nunca foram utilizadas e que poderão dar um outro rumo à coleção.

 

_Um exemplo original e bonito, foi na coleção de inverno 2002 de Jun Nakao, onde ele propôs, dentro de estruturas clássicas como casacos (de vários comprimentos) ou calças, um visual arrojado com mosquetão de alpinismo usado como abotoamento ou como forma de unir recortes das peças (barras). Esta foi uma proposta ao mesmo tempo utilitária (pois funcionam como fechos), mas também de impacto, pela inovação e contraste (cor e formato) além do equilíbrio obtido entre matéira-prima e modelagens (amplas, com detalhes grandes e simples como golas, recortes, etc.). O conjunto de ações que alinhavaram todo o conceito da coleção, resultou num visual de impacto e harmonia. Este é o objetivo que devemos perseguir!

 

_Como ele, já tivemos exemplos até citados anteriormente como os zíperes externos (Cori - inverno 2002) ou os colchetes da Prada colocados externamente.

 

_Na verdade, a CRIATIVIDADE pode ser ativada com o enfoque de utilizar de forma inusitada o que já conhecemos, ou utilizar coisas inusitadas (de outras áreas) empregando-as na nossa área.

 

_Só como exemplos de lugares bem interessantes para visitar em São Paulo temos a rua Florêncio de Abreu (especializada em materiais elétricos), a rua do Gasômetro e adjacências no Brás (especializadas em materiais plásticos, borrachas, ferragens e revestimentos automobilísticos) e a ladeira Porto Geral (especializada em acessórios para bijuterias) para pesquisar e achar sempre coisas novas e diferentes. Mesmo na sua cidade ou visitando outros lugares, é interessante “fuçar” lugares diferenciados, procurar artesãos, pesquisar lojas de museus ou feirinhas de antiguidades.

 

_Em São Paulo há feiras de bairros que são cheias de quinquilharias, antiquários e até designers , como no mercado Mundo Mix (acontece geralmente todo penúltimo fim de semana de cada mês na Barra Funda) onde podemos ter acesso a muito material novo e mesmo trabalhos de outros estilistas que são super vanguarda.

 

_No Masp, todo domingo, há uma feira de antiguidades onde, por exemplo, há uma barraca só de cartões postais antigos, uma mina de imagens, desenhos, idéias que podem ser transformadas ou, no mínimo, sugerirem temas a serem trabalhados em coleções. Portanto , uma enorme variedade de material impresso pode ser transformado em estampa, e a linguagem pode ser alterada posteriormente em programas de computação.

 

_Outro recurso para desenvolver as estampas é a fotografia, onde podem ser feitas colagens, montagens ou simplesmente a escolha de motivos para serem fotografados e depois digitalizados e trabalhados. As opções são: quadricromia, cromia ou chapados.

 

A quadricromia é um trabalho de retícula que com a junção de 3 cores(ciano, magenta e amarelo) mais o preto, que pode gerar todas as cores.

 

_A cromia seria o mesmo trabalho reticulado, mas em apenas 1 cor (pode ser estampado em qualquer cor).

 

_No Photoshop temos a possibilidade de transformar em bicromia ou tricromia e criar efeitos bonitos. Já o trabalho chapado, seriam as cores puras sobre traços definidos (sem reticular). Podemos misturar essas linguagens na fase de elaboração da estampa, fazendo colagens e misturando traços chapados. Na fase de execução da estampa, podemos nos valer de vários recursos como tintas fosforescentes que acendem depois de absorver a luz solar, refletivas, com relevo ( puff ), com brilho ( glitter ), silicone, etc. No próprio silicone podemos acoplar outros materiais como: areia, esferas de vidro, etc. Podemos ainda criar efeitos degradé ou manchados, ou ainda utilizar o processo de corrosão para eliminar o tingimento.

 

_Na parte de bordados as possibilidades se multiplicam com a variedade de linhas e tipos de pontos. Há revistas específicas de bordados, mas mesmo em revistas como Mari Claire Idées que é voltada para vários segmentos, acaba trazendo sugestões de extremo bom gosto, tanto em opções de cores, como CRIATIVIDADE . Os fabricantes de bordados prontos também oferecem muitas opções que podem ser costuradas ou aplicadas com ferro. As etiquetas bordadas ou estampadas também são outra opção de aplicação, podendo ter recortes ou detalhes vazados.

 

_O item aviamentos é quase infinito e o ideal é estar sempre em contato com fornecedores para manter-se atualizado. No Bom Retiro ( em São Paulo ), há inúmeras lojas que vendem tanto no atacado como no varejo e chegam a despachar para todo o Brasil. Hoje em dia temos muitas opções tanto nacionais como importadas. Mas podemos também desenvolver nossos próprios aviamentos e isto é uma forma de realmente diferenciar, sobretudo uma peça mais básica.

 

_Os artesãos são mão-de-obra que deve ser empregada nestes casos. Cada região tem suas características e com CRIATIVIDADE , podemos utilizar materiais rústicos ou simples e transformá-los, dando-lhe uma nova roupagem moderna e arrojada, além de estar prestigiando a “prata” da casa.

 

_Os acabamentos são tão importantes quanto os aviamentos. Podemos montar uma coleção partindo deles. Depois de definirmos a matéria-prima, é fundamental testarmos os acabamentos (em pequenas amostras) para observarmos se este tipo de costura ou detalhe se adequa ao tecido ou malha escolhida. Quando, por exemplo, definimos um tipo de galão costurado de uma determinada forma para contornar as peças, o ideal é que utilizemos (no grupo de peças que irão ser coordenadas) o mesmo acabamento, para que ajude a formar o visual harmônico.

 

_Um exemplo que causou impacto, foi a coleção verão-2002 de Mila Schön “com o “foco” voltado para o acabamento; uma nervura com uma nervura maior que o comum por ser preenchida por um cordão interno.

 

_São pequenos detalhes que vão sendo assumidos e conferindo às peças uma linguagem em comum e de impacto.

 

Conceito de Coordenação

_São conceitos muito relativos e abstratos, mas quanto mais conhecimentos adquirimos, mais aprimoramos a sensibilidade para classificá-los. O gosto é algo muito pessoal e depende do ambiente onde fomos criados, da nossa cultura, do nosso nível de percepção.

 

_Por isso, podemos afirmar (principalmente no nosso metier ) que o conceito B elo ou HARMONICO e F eio ou DESARMÔNICO é totalmente subjetivo. Digo no nosso metier , porque a moda, por ser algo em constante transformação, dita conceitos de beleza que podem tornar-se o oposto na próxima estação. Por isso o que hoje é considerado “ in” amanhã passa a ser “ out” .

 

Aqui, a ferramenta ATUALIZAÇÃO mostra-se fundamental para detectar estas transformações. Como chegar num denominador comum para detectar o equilíbrio? Quais parâmetros podemos utilizar, para poder balizar o conceito de coordenação?

 

Vamos primeiro procurar descrever esses conceitos de forma figurada, para depois podermos visualizá-los.

 

Primeiro, podemos definir que Harmonia / Equilíbrio resultam em BELEZA

 

Como obter ou produzir algo harmônico e equilibrado esteticamente?

 

_A resposta está no julgamento elaborado pelos sentidos. No nosso caso, esse julgamento é totalmente visual, embora atualmente já se estimulem outros sentidos para apoiar a valorização desse impacto; algumas lojas espalham perfume ou colocam músicas para criar um ambiente que tenha o perfil do seu público. A Nike por exemplo, dividiu sua loja em setores direcionados para cada esporte, com vídeos, jogos interativos e sons relacionados com o tema daquele setor. Isto cria um ambiente harmônico que valoriza o produto oferecido, estimulando quase todos os sentidos. Algumas lojas já têm o seu próprio bar ou restaurante. Mas estes são subterfúgios de valorização.

 

Voltando à definição de Harmonia e Equilíbrio , uma boa técnica é Olhar de longe

 

_Quando nos distanciamos, podemos ampliar nosso campo visual e analisar se o que estamos vendo não agride. Quando algo destoa , acaba chocando e conseqüentemente resulta na quebra do equilíbrio .

 

_Esta é uma fórmula muito simples, mas funciona. Quando você está muito tempo em cima de uma mesma coisa, fica difícil avaliar, pois gera familiaridade, proximidade, resultando depois em cansaço e incapacidade de avaliação. São aquelas ocasiões, em que temos que voltar a olhar no dia seguinte, para termos um julgamento mais preciso e imparcial.

 

_Logicamente, no nosso caso (onde o conceito de estética é oscilante), precisamos nos basear na informação do momento, mas sem perder o bom senso de levar em conta o perfil do nosso consumidor.

 

_Se atualmente o comprimento das saias é mini, e fazemos roupa para pessoas consideradas senior ou conservadoras, lançar uma modelagem com este perfil produziria um visual totalmente agressivo, desequilibrado para nossos clientes. Por mais que tivéssemos acertado o comprimento que está em voga, estaríamos propondo algo que iria agredir o nosso consumidor final, principalmente se não formos lançador de tendências.

 

_Outro item importante é o nosso “termômetro” ou “balança” de equilíbrio, cuja coluna ou fiel é para nós a indicação subjetiva que serve para encontrar a nossa visão do ponto de equilíbrio.

 

_Como já foi dito no início, os fatores educação, ambiência e vivência, são estruturais na formatação do conceito de harmonia / equilíbrio. Por este motivo é que as ferramentas ATENÇÃO e ATUALIZAÇÃO, são fundamentais para a formação dessa balança, desse termômetro, que irá nos orientar para encontrar a “justa dosagem” para produzir algo esteticamente CORRETO.

 

_O “ambiente” ou a “educação” que tivemos pode não ter sido favorável , mas está nas nossas mãos procurar a informação e despertar a ATENÇÃO, para poder crescer e amadurecer o senso estético. Quando não temos acesso ou não procuramos informação, fica difícil avaliar alguma coisa, pois não temos parâmetros para comparações.

 

Por exemplo: uma refeição desbalanceada, onde são servidos risoto com batata recheada e torta. Embora todos os pratos possam estar gostosos e visualmente bonitos, não há equilíbrio e o resultado final é desarmônico, pois todos os alimentos são à base de amido e tornam a refeição muito pesada.

 

_O equivalente na área do vestuário, seria usar uma camisa com uma gola alta rebuscada, juntamente com um brinco comprido do tipo pingente e ainda um colar. Peca-se pelo excesso, não há espaço físico para tantos detalhes sendo que a gola da blusa já era o “prato principal”, isto é, não precisávamos de mais adereços. Criou-se um visual pesado. O correto, seria eleger o que é mais importante e fazer todo o trabalho restante valorizando o escolhido. No caso de elegermos a gola, os acessórios se tornariam desnecessários, comportando no máximo um brinco leve e pequeno que não invadisse a área da gola.

 

_Com estes exemplos, fica claro que informações são necessárias para não pecarmos pelo excesso ou pela desarmonia. Quanto mais informações nós acumulamos, mais aprimoramos nossa sensibilidade e melhor vai se tornando o resultado desde que tenhamos capacidade para digerir e assimilar essas informações de forma compatível. No início, talvez devamos levar em consideração apenas a beleza da camisa para depois perceber que o restante também tem sua parcela de importância no acabamento final. Aos poucos iremos criar uma coleção onde a linguagem harmônica, irá soar como uma sinfonia, com todos os instrumentos afinados e a melodia, que foi muito bem escolhida e executada, irá ganhar vida numa regência perfeita.

 

_A coleção é um crescendo de informações que vai ganhando corpo à medida que cada peça é elaborada, pois embora todas tenham vida própria, a linguagem da coordenação é fundamental para o primeiro impacto.

 

Primeiro, observamos o “todo”, para depois captarmos individualmente os detalhes. _Por este motivo, não adianta fazer cada peça bonita, mas sem coordenação geral. Um exemplo típico, é aquela vitrine lotada de mercadorias onde fica difícil visualizar alguma coisa e o visual é tão carregado de informações, que acaba encobrindo ou desvalorizando o que está sendo exibido. O ideal, mais uma vez, é escolher um tema ou, às vezes, uma única peça e trabalhar na valorização da escolha.

 

_No caso de uma coleção, uma parte deve ser de impacto e o restante deve ser concebido com o propósito de complementação. A função das peças complementares, como o nome já diz, é seguir a mesma linguagem das peças de impacto e que servem como curinga. Na verdade, estas são os básicos, que podem ser utilizadas em diversas coordenações.

 

_Além do ponto de vista estético, a coordenação é importante para a viabilização da produção e do custo. Se criarmos uma estampa corrida ou desenvolvermos um tecido exclusivo, o ideal é que várias peças utilizem o mesmo material para amortizar o investimento (quadros, fotolito, fios, etc..) e consumir os mínimos produzidos (de tingimento, estampa, tecimento, etc.), evitando sobras no estoque.

 

A HARMONIA está intimamente ligada ao visual que se distribui entre CORES e/ou ESTAMPAS, FORMA (modelagem) e CAIMENTO (toque). O conjunto desses 3 recursos, é que fazem o visual final . São eles os geradores da coordenação perfeita.

 

_Cada recurso deve ser trabalhado em separado, mas tendo sempre em vista à coordenação geral. Se foi criado um tema, não podemos perder o foco e tudo deve confabular para que este foco seja de impacto.

 

Com o foco em mente, a HARMONIA da COORDENAÇÃO será ALCANÇADA.

 

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